Porque mais um blog?

É natural que se pergunte:

Porque mais um blog espiritualista de mensagens e poemas em meio a tantos que já existem?

Que teríamos de novo pra oferecer?

Além da simplicidade, sinceridade e desejo de sermos úteis, não temos nada de novo a oferecer, mas gostaríamos de perguntar: será que temos realmente prestado atenção naquilo que temos lido nestes muitos sites e blogs de mensagens ou poemas? Muitos deles trazem ótimas mensagens, lindos poemas e excelentes textos que, se prestássemos mesmo atenção, seriam de grande utilidade para nossa s vidas.

Oferecemos mais um destes blogs com mensagens, poemas e pequenos textos de esclarecimento, porém recomendamos que você leia apenas um texto de cada vez, reflita sobre ele, somente depois leia outro. Nestes tempos de excesso de informação em que vivemos, cometemos o erro de querer ler tudo para saber de tudo e acabamos, na pressa, não lendo nada e não aprendendo nada. Parece que o problema não está na quantidade de blogs e sites, mas no modo como temos nos relacionado com estes textos.

Vamos apresentar textos escritos por espíritos - alguns que ainda estão no corpo físico e outros que já deixaram a matéria densa e desfrutam da liberdade espiritual em corpos menos densos. A preocupação maior desses textos é de contribuir, ainda que minimamente, para tornar a humanidade melhor.

Esperamos que vocês leiam com atenção, desfrutem, reflitam... mas sem pressa!

Não queremos convencer, pregar religião ou fazer a cabeça de ninguém, pois acreditamos que a melhora espiritual só ocorre quando vem de dentro para fora e, para isso, é necessário que tenhamos autonomia. Entendemos que é preciso estar com a mente aberta, livre de dogmas para poder aprender coisas novas.

Se desejar, faça um comentário. Sua opinião e/ou colaboração além de muito importante, será bem vinda.

Do lado direito, logo abaixo, temos os marcadores - através deles você localiza os textos pelo assunto de seu interesse.


Nosso e-mail: umamigalhadeluz@gmail.com

Você pode nos mandar um e-mail ou deixar sua opinião
no final de cada texto. Sua participação é muito importante!
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domingo, 5 de março de 2017

Tristeza no Natal

                Era o natal do ano de 1959. Estávamos nos preparando para a comemoração desta bela data, época em que comemoramos o nascimento, ou melhor dizendo, a visita do grande mestre Jesus Cristo. Sempre gostei dessa época, não somente pelo que se comemora, mas pelo espírito de paz e de solidariedade que contagia a todos nestes dias.
                 Estávamos em casa na véspera do natal, eu minha esposa e meus três filhos, fazendo nossos preparativos para esse dia tão especial. Tudo estava em ordem. A árvore já montada, os presentes comprados. Tínhamos até alguns convidados que viriam festejar conosco o abençoado natal.
                À tarde, por volta das quinze horas, minha esposa se queixou que estava com um pouco de dor de cabeça. Disse que tomaria um comprimido e iria se deitar um pouco para ver se a dor passava. Estranhei um pouco, pois não era comum que ela tivesse dores de cabeça. Acreditei tratar-se de um pouco de cansaço, pois ela, desde o dia anterior estava às voltas com os preparativos para a noite natalina, desdobrando-se para que tudo ficasse pronto a tempo. A comida; a decoração da casa; a roupa das crianças, nossas roupas. Eram muitas coisas ao mesmo tempo. Ela me pediu que, caso adormecesse, para acordá-la às dezessete horas para que ela finalizasse os pratos que seriam servidos e para que pudesse tomar as últimas providências para nossa noite natalina.
                Como combinado, às dezessete horas entrei em nosso quarto para acordá-la. Chamei-a pelo nome, falando baixinho para que ela não se assustasse. Como ela não respondeu chamei-a novamente. Nada! O quarto estava na penumbra, acendi a luz e me aproximei. Ela estava respirando, seu corpo estava quente, mas ela não despertava. Bati em seu rosto, gritei, mas nada! Ela não acordava. Estava, na verdade, desmaiada, inconsciente.
                Corri até a rua. Parei um taxi que passava naquele momento. Pedi-lhe que esperasse, porque iríamos socorrer alguém. Entrei novamente em casa, peguei-a nos braços e a carreguei até o carro. Pedi ao meu filho mais velho que cuidasse dos irmãos e qualquer problema chamasse a vizinha.
Dirigimo-nos ao pronto socorro mais próximo. Paramos em frente à porta de entrada e, desesperado, gritei por socorro. Dois enfermeiros com uma maca vieram e a recolheram para dentro do hospital. Expliquei rapidamente o que havia acontecido. Ela foi socorrida enquanto eu fiquei na recepção apresentando meus documentos, como era de praxe nestas situações, ainda mais se tratando de um hospital público - eu não era um homem de grandes posses. Mandaram-me esperar dizendo que assim que tivessem alguma notícia me informariam. A suspeita, em princípio, era que ela poderia ter tido um derrame. Essa informação me foi dada por um dos rapazes que a conduziram para dentro.
                Esperei por mais ou menos uma hora, quando o médico que a atendeu mandou me chamar. Pelo jeito do rapaz que me chamou comecei a imaginar o pior, e o pior aconteceu mesmo! O médico me disse que ela realmente tinha tido um derrame cerebral muito forte, que haviam feito tudo o que foi possível naquela situação, mas ela não reagiu. Minha esposa havia assim, falecido inesperadamente. Eu não sabia o que fazer, senti que estava prestes a desmaiar e sentei numa cadeira que havia por perto para não cair ao chão. Naquele momento eu pensava: Meu Deus! Isso não é possível! Isso não pode estar acontecendo! Aquilo não era um pesadelo, estava acontecendo sim, era a dura realidade! Por que meu Deus? E no dia de natal!!!
                Depois de alguns minutos, consegui me recompor e me dirigi para casa. Fui buscar mais alguns documentos para dar início ao processo para o sepultamento de minha esposa e falar com as crianças. Talvez tenha sido a coisa mais difícil que fiz na vida: reunir três crianças na minha frente para contar-lhes que não tinham mais uma mãe; que sua mãe havia falecido. Choramos muito. Unimo-nos na dor. Naquela união encontramos a força para superar aquele momento terrível. No dia seguinte estávamos no cemitério, nos despedindo da esposa amada e da mãe dedicada. Tínhamos que tocar nossas vidas e assim fizemos. Com a grande ajuda de minha irmã fomos tocando nossas vidas como tinha de ser.
                Com o passar do tempo fui me transformando num homem amargo. Trabalhando e me desdobrando para cuidar dos filhos. Tivemos muitos problemas, mas o pior deles era que eu não me conformava com a morte da esposa. Na bebida encontrei um pouco de consolo para minha revolta. Se já não acreditava muito em Deus antes de tudo isso, agora não acreditava nem um pouco. Achava que Deus era uma figura, um mito que a sociedade inventou para nos consolar naquelas situações que não tem remédio. Para ser mais franco, passei mesmo a combater a ideia de Deus. Como poderia haver um Deus justo e bondoso que permitia que uma esposa fiel e mãe amorosa morresse inesperadamente deixando marido e três filhos pequenos em plena noite de natal?
                Os filhos foram crescendo, estudando, trabalhando, enfim tocando suas vidas do melhor modo que podiam. Tornaram-se boas pessoas, apesar de tudo. Houve ocasiões em que eles queriam que comemorássemos o natal; que montássemos uma árvore de natal e ficássemos juntos. Argumentavam que a mãe gostaria que assim fizéssemos, mas eu não cedia. Para mim, o natal era o pior dia da minha vida. Lembro-me que em alguns desses natais fiquei sozinho em casa. Meus filhos preferiam ir para a casa de parentes ou amigos me deixando sozinho para não terem que conviver com minha amargura e revolta.
                Lá pelos meus sessenta anos conheci uma pessoa que me falou algumas coisas sobre espiritismo; que as pessoas não morriam de fato; que estavam apenas em outra dimensão da vida; e coisas desse tipo. Em princípio achei aquilo tudo besteira de gente ignorante, sonhadora e desocupada. Mas comecei a pensar: e se aquilo fosse verdade? Será que eu poderia entrar em contato com minha esposa? Conversando com esse novo amigo sobre isso, ele me falou que era possível sim, mas que ele não poderia garantir, porque isso dependia de muitos fatores, tais como merecimento, entre outros. Se eu quisesse poderia acompanhá-lo ao Centro Espírita que ele frequentava e trabalhava. Lá havia um trabalho de psicografia onde alguns desencarnados mandavam mensagens para parentes encarnados. Quem sabe eu fosse agraciado com uma mensagem? Topei e lá fomos nós.
                Fui ao Centro Espírita quatro semanas seguidas e nada! Decidi que iria somente mais uma vez. Não iria mais dar asas à imaginação. Meu amigo insistiu para que eu não desistisse, porque apesar de não ter recebido mensagem alguma eu estava aprendendo alguma coisa sobre o mundo dos espíritos. Não colega! Essa foi minha resposta, já bastava o sofrimento pelo qual passei e ainda passava com a saudade daquela mulher que dava sentido para minha vida.
                Algum tempo depois, numa tarde em que havia acabado de chegar do trabalho um fato interessante ocorreu. Estava cansado e antes de tomar meu banho me joguei numa poltrona para descansar um pouco. Acabei adormecendo e até sonhando. No sonho, minha falecida esposa aparecia tão bonita ou mais do que era no tempo que partiu, e dizia que iria mandar uma mensagem para mim. Acordei de supetão, muito assustado. Foi um sonho que parecia real. Tomei meu banho e resolvi ir ao Centro Espírita, pois era justamente o dia do trabalho de psicografia.
                Ouvimos uma palestra enquanto os médiuns psicografavam. Ao final da palestra, para minha surpresa, a pessoa que conduzia os trabalhos me chamou pelo nome. Havia uma mensagem para mim! Emocionado, me dirigi à pessoa que iria me entregar a mensagem. Não quis ler a mensagem ali. Coloquei-a no bolso e fui para casa. Lá chegando, tranquei-me naquele que foi nosso quarto para poder ler a mensagem com tranquilidade.
                A mensagem era realmente dela, não tive dúvida nenhuma. Chamava nossos filhos pelo nome e me chamava pelo apelido carinhoso que somente nós dois conhecíamos. Pedia-me para mudar de atitude com relação a Deus. Dizia que somos ignorantes demais para compreendermos os seus desígnios e para compreendermos o porquê de as coisas terem acontecido da forma como aconteceram. Pediu-me para continuar cuidando de nossos filhos, apesar deles já serem adultos e que eu deveria estudar as coisas espirituais, porque isso ia me ajudar muito.
                A partir daquele dia passei a frequentar o Centro Espírita. Estudei e me tornei um trabalhador da casa, onde tive oportunidade de ajudar e orientar outras pessoas que como eu, tinham perdido entes queridos e estavam infelizes ou revoltados com a perda que tiveram. Aprendi que somos realmente pequenos demais para compreendermos a grandeza da divindade. Aprendi muito no convívio com os espíritos que trabalhavam naquela casa e que nos ajudavam a evoluir cada vez mais.
                Aos setenta e cinco anos de idade desencarnei de um modo muito tranquilo. Deitei-me para dormir e de repente, acreditando estar sonhando, fui recebido por M. no plano espiritual. Finalmente estávamos juntos novamente! Passei por um período não muito longo de adaptação. Pude então saber que ela esteve a maior parte do tempo junto de nós. Nos orientando e nos apoiando naqueles momentos mais críticos de nossas vidas na carne.

O Esposo.

                Hoje estamos aqui juntos, passando esta mensagem e contando nossa pequena história. Pedimos desculpas por omitirmos muitos detalhes importantes de nossas vidas, mas acreditamos que o principal foi dito. O que desejamos é mostrar que não devemos nunca duvidar da sabedoria de Deus. Devemos nos resignar e nos conscientizar de nossa ignorância, porque sabemos tão pouco dos desígnios do Criador. Tudo o que aconteceu conosco tinha uma razão de ser. O fato de nossos filhos terem sido criados sem a mãe tornou-os pessoas melhores e mais compreensíveis, de caráter mais firme. Isso só para citar uma das muitas razões. Eles precisavam, tanto quanto meu esposo, passar pelo que passaram para poder compreender muitas coisas, entre elas, as duas realidades da vida: a vida material e a vida espiritual. Tudo isso sem contar os fatores relacionados com as nossas existências passadas, pois nada escapa a lei de causa e efeito.
                Nos preparamos agora para nova jornada. Novas experiências nos aguardam. Ainda não sabemos se estaremos juntos ou não, mas de uma coisa sabemos, que mesmo não estando juntos na carne, estaremos sempre juntos em espírito e ainda vamos comemorar muitos natais na Terra.

Que Deus nos abençoe a todos.

A esposa.

Mensagem psicografada em 27-02-2017


                

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Lei de atração

                          



Certo dia, caminhando pela praia, vendo e ouvindo o mar que se agitava em ondas inquietas, meditava a respeito da vida. Suas dificuldades, suas alegrias, suas intrincadas situações nas quais eu tinha sempre que fazer escolhas; decidir a quem favorecer; a quem não favorecer; fazer o bem; fazer o mal; fazer nada. Refletia no quanto eu havia sido egoísta até aquele momento da minha existência. Fazia, sem ter planejado, uma espécie de balanço da minha vida até aquele momento. Mesmo não sendo uma pessoa religiosa, nem dessas pessoas que acreditavam em coisas como vida após a morte, por exemplo, eu tinha em mim, no meu íntimo, talvez no meu subconsciente, uma intuição ou suspeita de que havia algum tipo de justiça ou de compensação para os atos que praticávamos durante a nossa existência como seres humanos.
                Era feriado e eu aproveitava, juntamente com a esposa e filhos, para espairecer e descansar. Na verdade, eu não estava cansado por causa do trabalho, pois tinha uma boa disposição para tal. Talvez estivesse cansado de mim mesmo. Dizia que ia descansar mais por costume de falar assim. Talvez porque isso justificasse o passeio como algo útil e não como perda de tempo. Parece que isso dava ao passeio um caráter de necessidade.
                Naquele dia, na verdade, estava me sentindo um grande inútil.  Caminhava pela praia, enfadado, entediado e até mesmo um pouco deprimido. Em meus pensamentos eu achava que, ao invés de estar ali à toa, poderia estar fazendo algo de útil; algo importante; algo que pudesse ajudar alguém; algo que pudesse trazer algum benefício para quem quer que fosse, talvez até para mim mesmo. Imaginava quantas e quantas pessoas, que viviam em condições financeiras piores do que a minha, e que mesmo assim ainda conseguiam fazer alguma coisa pelos outros. Para não me entristecer mais, procurava convencer a mim mesmo de que, na verdade, eu não tinha obrigação nenhuma de ser “bonzinho’’ e ajudar a quem quer que fosse.  - Não fui eu quem fez o mundo. Não fui eu quem criou tantas situações lamentáveis. Por que eu teria que amenizar o sofrimento das pessoas e ajudar a organizar esta grande bagunça que é o mundo? Nada do que eu pensava conseguia me convencer de que eu estava vivendo e agindo corretamente. Eu não estava fazendo nada! Nem por mim mesmo eu estava fazendo alguma coisa. Estava me sentindo um completo inútil.
                Caminhava devagar, molhando os pés na água fria, que em seu ir e vir tornava minha caminhada mais enfadonha, mais entediante. Olhando para frente, ao longe percebi que havia mais alguém que tinha resolvido caminhar naquela manhã. Estava um pouco frio, por isso acredito que a praia estava daquele jeito, quase deserta. Lentamente o vulto foi se aproximando e se definindo. Tratava-se de um senhor idoso de cabelos e barbas já grisalhos. Ao cruzarmos um com o outro nos cumprimentamos com aquele “bom dia” indiferente, aquele cumprimento que fazemos mais por obrigação do que por vontade. Pelo menos da minha parte foi assim. Não sei bem por que, mas tive a sensação de que o velho tinha parado depois de passar por mim e isso me fez parar também. Feito uma criança curiosa olhei para trás e vi que o velho de fato estava parado me olhando de um modo curioso e ao mesmo tempo muito terno.
                - Muito frio hoje, não? Pronunciei estas porque não sabia o que dizer, de tão inusitada que era a situação. Graças a Deus ele não me deixou esperando muito e respondeu.
                - Sim. Muito frio, mas pior que o frio do clima é o frio dos nossos corações.
                Bastante surpreso pela resposta do velho, indaguei:
- Desculpe, não entendi.
O velho calmamente aproximou-se um pouco mais de mim e se fez mais claro.
- Disse isso porque percebi certa tristeza em seu olhar meu amigo, se é que posso chamá-lo assim, e o olhar quase sempre mostra o que se passa no coração.
- Claro que pode me chamar de amigo, mas quanto a esta certa tristeza, deve ser impressão sua. Falei isso de modo automático, como quem procura negar, esconder ou disfarçar os sentimentos, afinal estava na presença de um estranho. Mas, estranhamente senti uma espécie de confiança naquela pessoa, talvez por sua aparência de “bom velhinho” e continuei falando.
- Estava apenas pensando um pouco na vida e na falta de sentido de tudo isso. Na verdade, acho que estou um pouco entediado. Deve ser isso.
- Viver não é fácil mesmo meu amigo. A vida é como uma corrida de obstáculos. Mal acabamos de superar alguma dificuldade e logo surge outra e mais outra. Digo isso porque já passei por tanta coisa nesta vida... Já me senti assim como você está se sentindo agora durante muito tempo, mas hoje superei esta dificuldade e não tenho mais este problema.
- Me conte como foi isso, pedi, mal disfarçando aquele misto de ansiedade e curiosidade.
Chegávamos perto de um quiosque que ainda estava fechado.  Com as mãos, limpamos a areia deixada pelo vento noturno e nos sentamos nos bancos de uma daquelas mesas de madeira que ficam fixas na praia.
                - Sabe por que você está se sentindo assim? É porque você tem vivido de um modo muito egoísta. Você só tem se preocupado consigo mesmo.
- Não é verdade. Retruquei, mostrando um pouco de irritação. Eu trabalho muito, tenho esposa, filhos, aos quais não falta nada.
- Claro meu amigo, mas não é disso que estou falando. Preste atenção: toda esta realidade é feita para que nós tenhamos todo tipo de experiências; para que possamos, através desse aprendizado, desenvolver nossa capacidade de amar, de compreender os outros para nos sentirmos irmanados aos outros. Você compreende? Você tem feito isso?
Fiz aquela cara de quem não estava compreendendo muito bem. Ele continuou.
- Aprendi que nós não viemos a este mundo apenas para sobreviver. Não estamos aqui apenas para comer, defecar e procriar. Viemos aqui, principalmente para desenvolvermos nossa capacidade de amar.
A conversa estava me incomodando. Por um momento, em minha ignorância, cheguei a pensar que o velho tinha outras intenções.
- Pense no que tem feito de sua vida até agora. Será que tem feito aquilo que o seu coração tem mandado? Será que sua consciência está tranquila com o seu modo de proceder? Será que o alimento material que tem fornecido aos seus tem sido suficiente para lhes satisfazer todas as necessidades? Se a resposta para estas perguntas fosse sim, você não estaria neste estado depressivo porque sua consciência estaria tranquila. E no tempo livre que você dispõe? O que tem feito? Será que andar sozinho e entediado pela praia é uma boa coisa para se fazer com esse tempo tão precioso?
- Aonde o senhor quer chegar? Agora fazia cara de irritado mesmo. Cara de alguém que não estava gostando nem um pouco do rumo para o qual aquela conversa caminhava. Tinha a impressão que estava levando uma bronca. Sendo chamado à atenção por um estranho.
- Por favor, não se aborreça. Não estou lhe julgando ou querendo lhe dizer o que deve fazer de sua vida. É que sinto que posso lhe ajudar a entender o que se passa consigo. Essas perguntas, aparentemente impertinentes, são apenas parte da introdução para o que quero lhe dizer. E quero lhe dizer isso porque já me senti assim tão inútil como você está se sentindo agora. Aprendi durante minha vida que “Somos Um”, explico: Existe, entre as pessoas, por mais estranhas que sejam umas às outras, uma ligação entre elas, ou seja, somos parte de uma coisa só! É por isso que, quando nos sentimos sozinhos ficamos chateados, como você está agora. E ficamos assim porque sabemos, de uma maneira intuitiva, que estamos distantes dos outros. Nós precisamos dos outros para tudo! Até mesmo para nos reconhecermos precisamos do olhar do outro! A verdade é que, todo o sentido da nossa vida está relacionado à vida dos outros! O outro é quem diz quem nós somos! Você já deve ter ouvido a expressão: “ninguém é feliz sozinho”, pois esta é uma das grandes verdades que aprendi ao longo da minha vida. Por trás desta frase tão singela se esconde um grande ensinamento, uma lei universal.
Agora eu estava espantado com o discurso do velho. Tinha a impressão de que ele sabia mesmo o que se passava comigo.
- Comece a analisar sua vida partindo desse ponto de vista e você verá que está sozinho. Mesmo junto à família ou com muitas pessoas ao seu redor, você pode estar sozinho.
- Como fazer para não nos sentirmos sozinhos? Senti que esta era a pergunta que ele esperava que eu fizesse.
- Todas as vezes que tomamos atitudes egoístas nos distanciamos das pessoas. Quando deixamos de fazer o bem para alguém, por mais insignificante que seja este ato, estamos nos distanciando das pessoas. Saiba que, em certos momentos, um sorriso, uma palavra de carinho, são bondades maiores que muitas coisas que o dinheiro pode proporcionar. As pessoas, em algumas ocasiões, só querem um pouquinho de atenção. Quando negamos isso para elas estamos nos distanciando não só destas, mas de todas as pessoas. O problema é que o egoísmo está tão arraigado em nós que começamos a achar que nosso comportamento indiferente para com os outros é coisa normal, mas não é, tenha certeza disso. Passamos a ver todos como competidores ou como obstáculos que precisam ser removidos de nosso caminho. Enquanto agirmos assim estaremos nos distanciando das pessoas. Então, meu amigo, respondendo à sua pergunta: para não nos sentirmos sozinhos, afastados das pessoas, basta que passemos a tratar os outros como gostaríamos de ser tratados. Muito simples não? Devemos agir como alguém que sempre quer o bem dos outros. Comece a agir assim e você verá que a sua vida se encherá de sentido. Por que você se sente insatisfeito mesmo tendo uma vida confortável? É porque lá no fundo você sente e você sabe que não está fazendo o bastante nem para os outros que lhe cercam e nem para você mesmo. Toda esta insatisfação pode ser traduzida como solidão – a solidão do egoísmo. O egoísmo é contrário a Lei estabelecida pela Fonte de Amor de onde viemos, na qual fomos gerados. Esta Lei é muito simples e você, intuitivamente a conhece e a sente em seu íntimo. É a Lei de Atração. Ela nos diz que o semelhante atrai o semelhante. Pode ver, todo gesto de carinho atrai outro gesto de carinho. Amor atrai amor. Generosidade atrai generosidade. Experimente viver espalhando por aí aquilo que você deseja para você mesmo e verá que sua vida ganhará outro sentido. Egoísmo atrai solidão. Compartilhamento atrai as pessoas para junto de você e como eu disse antes, precisamos dos outros, eles são o sentido de nossas vidas. Você está me compreendendo?
- Creio que sim, mas será que isso funciona na prática?
- Experimente por alguns dias. Mude sua maneira de agir. Comece a ver todos, mesmo aqueles a quem você não aprecia muito, como se fossem seus semelhantes, como se fossem seus irmãos. Trate a todos com carinho, com generosidade. Não deixe de fazer o bem sempre que tiver oportunidade e você verá o que vai acontecer em sua vida. O bem atrai o bem!
Ficamos ali conversando por mais alguns minutos. Ele reforçou alguns pontos de suas ideias e eu tirei algumas dúvidas. Com um aperto de mão nos despedimos. Quando ele já se ia longe, lembrei-me de que não havia perguntado sequer o seu nome e nem ele ao meu.
No caminho de volta para a casa onde minha família estava hospedada fui meditando nas palavras daquele simpático velhinho. Será que ele tinha razão? Para mim, ser egoísta, querer sempre o melhor somente para mim era uma coisa tão normal. Seria esta a razão pela qual eu estava me sentindo tão vazio? Bem, não custava nada experimentar e tentar uma mudança. Sempre notei que as pessoas boas e generosas eram mais serenas, estavam sempre alegres e confiantes, mesmo nas piores situações. Resolvi tentar.
 Decidi começar na mesma hora, com a esposa e com os filhos. Ao voltar para casa, dei a ideia de fazermos algo juntos, dividir tarefas, conversarmos, enfim tornar aquele passeio um motivo de união e não o que costumava ser: cada um para o seu lado, isolado em seu próprio mundo, como se fôssemos estranhos...que, de fato, éramos. O resultado foi que tivemos um dia maravilhoso. Brincamos, cozinhamos, conversamos e até lhes contei sobre o encontro com o meu amigo anônimo.
Passei a buscar conhecimentos relacionados àquela tal Lei de Atração e acabei descobrindo toda uma realidade espiritual que se escondia por trás daquelas palavras tão simples: semelhante atrai semelhante. Estudei sobre reencarnação, lei de causa e efeito, enfim passei a compreender, tal como o velhinho me ensinou, que não viemos à Terra somente para comer, defecar e procriar. Entendi com profundidade aquilo que ele disse sobre precisarmos uns dos outros. Aprendi que cada um de nós é um pedacinho do Criador. Por isso é que precisamos uns dos outros. Somos pedaços e para nos sentirmos inteiros e completos precisamos estar unidos uns aos outros. Entendi porque o Mestre Jesus e tantos outros espíritos iluminados que estiveram na Terra nos aconselhavam amar até os nossos inimigos: Somos Um!
A partir daquele dia. A partir das palavras singelas daquele amigo anônimo, minha vida mudou de rumo. Ele deu início ao começo da minha mudança de atitude em relação à vida ao falar da Lei de Atração e me fez procurar e encontrar o sentido de minha existência.
 Se hoje estou aqui, já desencarnado, tendo o privilégio de transmitir esta mensagem positiva, procurando com muita humildade, fazer com que as pessoas também passem a procurar por si mesmas nos outros, na felicidade dos outros, agradeço aquele velho amigo que eu, tenho certeza, um dia vou reencontrar para poder abraçá-lo e agradecer por tudo que ele despertou em mim naquele dia frio de praia deserta.
 A todos que tiverem contato com minhas pobres palavras, aconselho que pensem sobre isso com muito carinho. É uma coisa tão simples, mas que pode ser, para vocês também, o início de uma mudança que vai lhes fazer despertar do pesadelo do egoísmo para a realidade da Lei de Atração – semelhante atrai semelhante. Vocês poderão perceber que colhemos aquilo que plantamos. O ensinamento é tão simples que dá a impressão de que não tem o efeito que estou anunciando, mas façam como o velhinho me recomendou: experimente por alguns dias e depois tirem suas próprias conclusões.
Egoísmo atrai solidão.
Generosidade atrai amigos e irmãos.
E nós precisamos uns dos outros,
Porque somos todos UM.
Muita paz e muita luz

Um espírito amigo.

Mensagem psicografada em 10/10/2016

sábado, 1 de outubro de 2016

Pequeno milagre no sertão

Era mês de fevereiro já chegando em março no nordeste brasileiro. A seca estava no pico. Na caatinga, as últimas flores e folhas teimosas do mato rasteiro entregavam suas vidas ao sol ardente e aos ventos que mais pareciam bafos quentes das fornalhas do inferno. O verde ia se “amarronzando” de vez. A seca estava em seu pior momento. O momento decisivo. Ou começava a chover ou se emendaria uma seca na outra sem passar pelo período das chuvas. Os animais, principalmente o gado tombava um a um pela fraqueza ocasionada pela falta de alimentação, consequência direta da seca e pela sede propriamente dita.

Tudo era tristeza. Dava pra ver a tristeza nos olhos dos bichos e das gentes. Os animais tombavam mortos e nas gentes era a esperança que tombava. Assim iam tombando um a um, cada qual do seu jeito. A impressão que dava era que Deus tinha mesmo se esquecido de tudo e de todos por aquelas bandas. Só se via poeira e algumas pessoas se arrastando em busca das últimas poças d’água em que se transformaram os açudes. Era um cenário desolador.
Famílias inteiras e famílias metades punham-se na estrada levando nas costas, feito burros de carga, seus pertences, suas crianças e sua dignidade. Deixavam quase tudo para trás na busca desesperada por outra vida melhor em outras paragens onde a falta de esperança não fosse tão presente. Buscavam um lugar onde a dor fosse outra que não a dor do estômago vazio que finda esvaziando também a esperança da alma.
Em meio a esta paisagem desolada, num pedacinho de terra distante de tudo, avistava-se uma casinha de pau-a-pique. Lá morava um João, mais um da Silva entre tantos da Silva famintos que resistiam até as últimas forças pra não abandonar a terra que foi do pai e que um dia ia se encher de flor, de verde, de comida e de alegria.
Meio sentado e meio deitado em sua rede velha e puída que tinha a mesma cor tudo, João se balançava pra lá e pra cá olhando para o céu a espera de um sinalzinho que fosse da chuva que traria novamente vida à tudo, inclusive pra ele mesmo. Quando a seca atinge esse estágio até parece que as coisas vão ficando todas da mesma cor marrom. Cor de morte. Cor de desesperança. Parece que não existem mais pessoas, nem bichos, nem casas, nem vegetação. Só existe o marrom. A cor passa a ser coisa. Ela representa a entrega das forças; ela é a face da prostração do ânimo.
Pensativo, balançando pra lá e pra cá em sua rede gemedeira, João da Silva se perguntava: por que as coisas têm de ser assim? Sabia que na cidade as coisas eram um pouco diferentes. O povo dizia que lá tudo era mais fácil. A única resposta que lhe vinha à mente era que Deus havia se esquecido dele mesmo. Não só dele, mas daquele povo todo que, aos seus olhos, parecia que nem era mais gente, porque já tinham a mesma cor de tudo. Marrom. Cor de abandono.
Nessas horas, seu pensamento o levava de volta à infância, à adolescência e para sua mocidade. Foram épocas em que chuva não foi tão ausente e molhava aquela terra que se enchia de beleza e de alegria só de ouvir o barulho de um trovão. Mas, logo voltava para o hoje e se deparava com toda aquela sequidão, com toda aquela tristeza. Dava de cara com aquele sol esmagador, cujo brilho só faltava cegar. Cadê as nuvens? Perguntava pra ninguém. A única resposta que ouvia era a sua própria, que repetia que Deus se esqueceu daquela terra e daquela gente da mesma cor da terra. Insistia: como é possível? Tanto lugar de fartura, onde chove até demais e ali, aquela insistente sequidão, aquela falta de saída. O fato é que não conseguia, em sua cabeça de sertanejo, de homem simples, acreditar que aquilo era justo. Não era justo não, que aquele povo todo vivesse naquela situação de penúria. Já tinha rezado tanto. Já tinha feito tanta promessa pra tudo que era santo e nada. Nada de chuva. A única água que nunca faltava eram as lágrimas daquela gente sofredora e triste que não tinha meios de sobreviver com dignidade.
O que João ainda tinha em casa pra comer, era um resto de feijão que nem dava pra manter o saco em pé, uns bons punhados de farinha e algumas rapaduras, coisa que daria pra poucos dias. Com sorte caçaria um mocó pra fazer de mistura. João ficava imaginando como era possível que esses bichinhos conseguissem sobreviver naquela terra empoeirada. Se para ele, homem, já estava quase impossível...
Dava graças a Deus por não ter casado ainda e não ter uma ruma de meninos pra criar. Podia ficar ali prostrado, esperando a morte chegar sem ter outras preocupações, além daquelas inerentes à seca. Ficaria maluco, com certeza, se tivesse mais gente pra ele ter de dar de comer. Se tivesse mulher e filhos seus problemas seriam bem maiores. Seriam sim!
Numa dessas tardes em que nem vento tinha e que tudo parecia parado, e o único movimento era o de sua rede gemedeira, seus olhos avistaram uma figura que de longe vinha aos poucos se aproximando. Um pontinho no meio do nada que ia crescendo de pouquinho em pouquinho. Um vulto, que como tudo por lá quase não tinha cor própria. De vez em quando se misturava com a poeira da estrada e quase não se distinguia dela. Levou bem uns vinte minutos para o velho maltrapilho poder, aos olhos de João, ser separado da estrada, dos galhos secos e da poeira. João se surpreendeu, porque nesses tempos de seca brava ninguém se aventurava a fazer grandes caminhadas por ali, até pra economizar forças. Só se aventuravam aqueles que decidiam a fugir da seca e da falta de perspectiva; aqueles que se iam de uma vez por todas.
- Se achegue meu velho! Que diabos o senhor faz por estas bandas. O rumo da cidade é pro outro lado!
- Estou só passando. Tô meio sem rumo. Não tenho morada fixa. Mas não quero incomodar. Se puder ajudo, se não vou me embora.
- Venha pra sombra meu velho! Dizendo isso, levantou-se, foi até o camburão de água que ficava na cozinha, encheu uma caneca e voltou.
- Tome aqui um gole d’água. Pra beber ainda se arruma.
- Obrigado meu filho.
Puseram-se a conversar sobre muitas coisas, mas o assunto principal não poderia ser outro a não ser a seca que assolava a região e os corações. Não tinham como fugir dela, nem nas conversas. Falavam, falavam, falavam, que mais podia se fazer em relação à seca? Anoiteceu, João foi pra cozinha e preparou no fogão de lenha um feijão temperado com fome. Comeram com gosto.  João espalhou um monte de palha no canto do quarto para o velho dormir em cima e descansar os ossos. O velho agradeceu a acolhida e dormiu a noite inteira.
No outro dia, quando o sol já apontava ameaçadoramente no horizonte, o velho já se encontrava pronto pra colocar os pés na estrada. João não quis deixar o velho sair sem um desjejum e lhe deu de comer mais um “feijãozinho”. O velho comeu, agradeceu e fez este comentário:
- Sabe moço, eu já estive em muitos lugares nesta minha longa vida. Já vivi muito mesmo moço. Estive em casa de pobre e casa de rico; em casa de gente boa e em casa de gente ruim. Já vi muita beleza, mas já vi muita coisa feia, mas uma coisa posso lhe dizer: não me lembro, em todo esse tempo, de ter saboreado uma refeição tão boa, ter bebido uma água tão fresca e ter estado em tão boa companhia.
João não disse nada, apenas olhou para o velho como quem olha para uma criança. Pensou que aquilo era coisa de caduco mesmo. Onde já se viu uma caneca de água salobra, um prato de feijão sem tempero nenhum e que tão duro quase nem cozinhava e um matuto feito ele terem aquelas qualidades. De jeito nenhum! Só podia ser coisa de caduco mesmo.
- Sabe moço, continuou o velho, você vive se perguntando por que é que as coisas são assim tão difíceis, não é verdade? Pois eu vou tentar lhe explicar pra ver se você entende. Você já viu alguém fazer esforço quando está na fartura?  Não, na fartura a maioria das pessoas se acomoda. Você já viu alguém se perguntar por que é que Deus é tão generoso quando as coisas estão indo bem? Não moço, a maioria das pessoas nem se lembra que Deus existe quando as coisas estão boas. O problema moço é que nós só crescemos e aprendemos a ser pessoas melhores na dificuldade. Imagine o tamanho da alegria desse povo quando a chuva vier. O tamanho dessa alegria só pode ser comparado com o tamanho da tristeza provocada pela seca. Disso, você pode concluir que só pode saber realmente em toda plenitude o que é uma grande alegria quem passou por uma grande tristeza, porque tem uma coisa oposta pra comparar. Tem muita coisa que não dá pra gente compreender mesmo. Coisas que estão nos desígnios Daquele que criou tudo isso e que só Ele sabe. Tem aquelas coisas ruins que podemos ter feito nas outras encarnações que já tivemos antes aqui na Terra e que talvez uma vida só não dê pra consertar. Mas de qualquer jeito não é tão difícil assim entender que precisamos do ruim pra saber o que é o bom. Precisamos da seca pra poder a valorizar a chuva abençoada e aprender, como faz a formiga, guardar um pouco na época da fartura pra quando a fase ruim chegar pra não passar necessidades. Há quanto tempo existe a seca moço? Será que já não era pra gente ter entendido a sua lição? Precisamos da fome pra sentir o gosto da comida. Um mundo onde não faltasse nada, faltaria tudo. Faltaria até alegria, sabe por que? Porque não teria tristeza pra comparar.
João ouvia tudo, prestava atenção e compreendia mais ou menos o que o velho queria dizer. Depois de pequena pausa, o velho continuou falando de um jeito manso como quem dá tempo para o outro pensar no que foi dito.
- Nunca diga que Deus te esqueceu meu filho, porque isso não é verdade. Deus está presente sempre, para isso é que Ele deixou pedacinho dele dentro de nós. O problema é que basta a coisa ficar ruim pra gente se esquecer disso. Todo filho tem alguma coisa do Pai. Nunca se deixe levar pela desesperança, porque um dia a chuva vem. Pode demorar um pouco mais ou um pouco menos, mas um dia ela vem. E quando vier trará muita coisa que se havia esquecido ou perdido. Não deixe que a pior das secas tome conta de você, a seca do coração, a falta de amor. Pra essa não tem chuva que dê jeito. Veja que com toda a miséria que você está passando, ainda teve a bondade de me dar de comer, de beber e me dar pousada. Você mostrou que é possível ter um gesto de bondade mesmo numa situação dessas. Isso moço foi lição da seca, porque na fartura, esse gesto não seria tão valioso. Fique em paz moço, que Deus te abençoe!
João continuou parado, pensativo, enquanto o velho do qual nem sabia o nome ia se afastando lentamente e seu vulto novamente se misturando ao marrom da estrada, da poeira, de tudo. Ficou ainda mais alguns minutos a matutar e chegou a conclusão de que o velho até tinha alguma razão, mas no fundo estava caducando mesmo.
Entrou em casa pra tomar um gole d’água e notou uma coisa estranha: tanto o saco de farinha quanto o saco de feijão estavam quase cheios. Jurava que estavam quase acabando da última vez que os tinha visto! Tinha rapadura demais também! Sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. Vai ver que a seca lá estava lhe cozinhando os miolos também. Pegou a velha caneca de alumínio, encheu com água do velho camburão e bebeu. Nunca em sua vida tinha bebido uma água tão doce, tão fresca...

Ainda meio assustado pensou: é... vai ver que Deus não esqueceu da gente mesmo...

Um espírito amigo

Mensagem psicografada em 26/09/2016

quinta-feira, 14 de julho de 2016

HISTÓRIA DE UM MATADOR


HISTÓRIA DO TENÓRIO

Tenório era um jagunço, naquele tempo em que no Nordeste havia muitos cabras machos. Um tempo em que ser homem significava ser bruto, ser violento, castigar o adversário ou inimigo da pior forma possível. Fazia parte da educação não levar desaforo para casa e se possível ferir, de algum modo, o oponente ou até mesmo matá-lo.
Tenório era o mais terrível jagunço da região, tanto que quando algum fazendeiro ou qualquer um que tivesse dinheiro para pagar, queria se livrar de algum adversário, corriam logo para contratá-lo para que ele fizesse o “serviço”. Sabiam que com o Tenório, o serviço estava garantido ou teriam o dinheiro de volta.
Certa época, quando Tenório já contava com muitas marcas em seu trinta e oito, isto é, quando tinha muitas mortes nas costas, os bons espíritos que cuidavam da evolução naquelas bandas e que já andavam desanimados com a situação e principalmente com a maldade do Tenório foram se queixar diretamente com o chefe: Jesus em carne e osso – ou melhor dizendo: Jesus em espírito e verdade.
Após explicarem toda a situação e a dificuldade em influenciar Tenório para que ele mudasse de atitudes, Jesus pensou um pouco e disse: Deixem comigo, isso requer uma intervenção direta, um tratamento de choque. Continuem o serviço de rotina por lá, do Tenório cuidarei eu.
Então Jesus, lembrando-se da estratégia que havia usado com Paulo de Tarso, um belo dia, num imenso clarão de luz, apareceu de repente na frente do Tenório, que apesar de ser um matador malvado já tinha tido algum ensinamento religioso e logo reconheceu Jesus, mas mesmo assim não se abalou. Era cabra macho!  Não se espantava nem com o diabo, porque haveria de se espantar com Jesus.
- Olá Tenório, vim lhe procurar porque você foi um dos escolhidos para virar santo e me auxiliar na redenção do mundo!
- O Senhor me desculpe a franqueza, mas o Senhor só pode estar brincando!
Jesus ergueu as mãos para o céu, capturou um raio e jogou aos pés de Tenório, que sentiu toda a sua pele chamuscada pelo fogo que se desprendeu do corisco.
- Vixe! Não precisa ficar com raiva meu Senhor! Já entendi. Só não entendo porque tem que ser eu, que já estou com um pé no inferno e outro na casaca de banana. Sou sujeito ruim.
- Todos podem se redimir, por pior que seja a situação em que se encontram. O fato é que você está escalado e pronto! Vá se preparando. Preciso que você se torne uma pessoa boa e quando você desencarnar lhe transformo em santo, e sumiu em outra explosão de luz.
Ora, Tenório, que já tinha enfrentado todo tipo de besta humana ou não, ficou atônito. Desse dia em diante fez de um tudo para melhorar e se tornar bom, mas era tão difícil. Com o tempo parou de matar e começou só a bater. Judiar só pouquinho para que o cabra criasse vergonha. Perdeu muito “serviço” com isso e acabou trabalhando na lavoura e lá sentindo como era dura a vida dos seus conterrâneos. Logo parou de bater nas pessoas também. Trabalhou até a sua velhice, mas nunca conseguiu se tornar uma pessoa boa de fato. É claro que ajudou a um ou outro, mas sabia que era por obrigação e não por bondade mesmo. Assim desencarnou...
 Após curto período na erraticidade (espaço de tempo em que os espíritos aguardam nova encarnação), onde Tenório pode se encontrar com alguns daqueles que ajudou a fazer a passagem ou “despachar” como ele mesmo dizia e sentir o ódio que tinham por ele, alguns espíritos amigos o resgataram e o levaram à presença de Jesus.
Ele já chegou arrependido e constrangido pelos encontros que havia tido com algumas de suas ex-vítimas e muito envergonhado porque sabia que tinha falhado na missão que Jesus havia lhe confiado. De cabeça baixa chegou pra perto de Jesus e ficou calado. Então Jesus falou:
- Parabéns Tenório! Estou muito feliz por você! Fizemos muito progresso!
- Mas Senhor, eu falhei, não consegui me tornar uma pessoa boa. Parei de matar e depois de bater. Depois trabalhei tanto pra sobreviver que não tive nem tempo de ficar bom naquela vida duríssima que levei trabalhando de sol a sol.
- Vou lhe dizer toda a verdade Tenório. Quando lhe procurei, eu já sabia que você não ia conseguir. Imagine se eu lhe dissesse apenas para parar de matar. Você estaria até agora surrando seus irmãos conterrâneos. Eu lhe dei logo a tarefa maior pra ver se você conseguia cumprir pelo menos uma parte dela. Veja o que conseguimos: você parou de matar, com o tempo parou de bater e ainda por cima viu como é dura a vida dos seus irmãos para saber que já sofrem o bastante sem precisar da sua ajuda. Agora você vai renascer no mesmo local, vai ter uma ruma  de filhos, vai amá-los e educá-los, sem saber que a maioria deles são aqueles a quem você “despachou” e depois vai voltar aqui, sabe porque? Porque ainda estou precisando daquele santo!
Tenório não conseguiu dizer uma palavra. As lágrimas falaram por ele...

Uma migalha de luz.