HISTÓRIA DO TENÓRIO
Tenório era um jagunço,
naquele tempo em que no Nordeste havia muitos cabras machos. Um tempo em que ser homem significava ser bruto, ser
violento, castigar o adversário ou inimigo da pior forma possível. Fazia parte
da educação não levar desaforo para casa e se possível ferir, de algum modo, o
oponente ou até mesmo matá-lo.
Tenório era o mais terrível jagunço da região, tanto que quando algum fazendeiro ou qualquer
um que tivesse dinheiro para pagar, queria se livrar de algum adversário, corriam
logo para contratá-lo para que ele fizesse o “serviço”. Sabiam que com o
Tenório, o serviço estava garantido ou teriam o dinheiro de volta.
Certa época, quando Tenório já contava com muitas marcas em
seu trinta e oito, isto é, quando tinha muitas mortes nas costas, os bons
espíritos que cuidavam da evolução naquelas bandas e que já andavam desanimados
com a situação e principalmente com a maldade do Tenório foram se queixar
diretamente com o chefe: Jesus em carne e osso – ou melhor dizendo: Jesus em
espírito e verdade.
Após explicarem toda a situação e a dificuldade em influenciar Tenório
para que ele mudasse de atitudes, Jesus pensou um pouco e disse: Deixem comigo,
isso requer uma intervenção direta, um tratamento de choque. Continuem o
serviço de rotina por lá, do Tenório cuidarei eu.
Então Jesus, lembrando-se da estratégia que havia usado com
Paulo de Tarso, um belo dia, num imenso clarão de luz, apareceu de repente na
frente do Tenório, que apesar de ser um matador malvado já tinha tido algum
ensinamento religioso e logo reconheceu Jesus, mas mesmo assim não se abalou. Era
cabra macho! Não se espantava nem com o diabo, porque
haveria de se espantar com Jesus.
- Olá Tenório, vim lhe procurar porque você foi um dos
escolhidos para virar santo e me auxiliar na redenção do mundo!
- O Senhor me desculpe a franqueza, mas o Senhor só pode
estar brincando!
Jesus ergueu as mãos para o céu, capturou um raio e jogou
aos pés de Tenório, que sentiu toda a sua pele chamuscada pelo fogo que se
desprendeu do corisco.
- Vixe! Não precisa ficar com raiva meu Senhor! Já entendi.
Só não entendo porque tem que ser eu, que já estou com um pé no inferno e outro
na casaca de banana. Sou sujeito ruim.
- Todos podem se redimir, por pior que seja a situação em
que se encontram. O fato é que você está escalado e pronto! Vá se preparando.
Preciso que você se torne uma pessoa boa e quando você desencarnar lhe
transformo em santo, e sumiu em outra explosão de luz.
Ora, Tenório, que já tinha enfrentado todo tipo de besta
humana ou não, ficou atônito. Desse dia em diante fez de um tudo para melhorar
e se tornar bom, mas era tão difícil. Com o tempo parou de matar e começou só a
bater. Judiar só pouquinho para que o cabra
criasse vergonha. Perdeu muito “serviço” com isso e acabou trabalhando na
lavoura e lá sentindo como era dura a vida dos seus conterrâneos. Logo parou de
bater nas pessoas também. Trabalhou até a sua velhice, mas nunca conseguiu se
tornar uma pessoa boa de fato. É claro que ajudou a um ou outro, mas sabia que
era por obrigação e não por bondade mesmo. Assim desencarnou...
Após curto período na
erraticidade (espaço de tempo em que os espíritos aguardam nova encarnação),
onde Tenório pode se encontrar com alguns daqueles que ajudou a fazer a
passagem ou “despachar” como ele mesmo dizia e sentir o ódio que tinham por
ele, alguns espíritos amigos o resgataram e o levaram à presença de Jesus.
Ele já chegou arrependido e constrangido pelos encontros que
havia tido com algumas de suas ex-vítimas e muito envergonhado porque sabia que
tinha falhado na missão que Jesus havia lhe confiado. De cabeça baixa chegou
pra perto de Jesus e ficou calado. Então Jesus falou:
- Parabéns Tenório! Estou muito feliz por você! Fizemos muito
progresso!
- Mas Senhor, eu falhei, não consegui me tornar uma pessoa
boa. Parei de matar e depois de bater. Depois trabalhei tanto pra sobreviver
que não tive nem tempo de ficar bom naquela vida duríssima que levei trabalhando
de sol a sol.
- Vou lhe dizer toda a verdade Tenório. Quando lhe procurei,
eu já sabia que você não ia conseguir. Imagine se eu lhe dissesse apenas para
parar de matar. Você estaria até agora surrando seus irmãos conterrâneos. Eu
lhe dei logo a tarefa maior pra ver se você conseguia cumprir pelo menos uma
parte dela. Veja o que conseguimos: você parou de matar, com o tempo parou de
bater e ainda por cima viu como é dura a vida dos seus irmãos para saber que já
sofrem o bastante sem precisar da sua ajuda. Agora você vai renascer no mesmo
local, vai ter uma
ruma de filhos, vai amá-los e educá-los, sem saber
que
a maioria deles são aqueles a quem você “despachou” e
depois vai voltar aqui, sabe porque? Porque ainda estou precisando daquele
santo!
Tenório não conseguiu dizer uma palavra. As lágrimas falaram
por ele...
Uma migalha de luz.
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