Era
o natal do ano de 1959. Estávamos nos preparando para a comemoração desta bela
data, época em que comemoramos o nascimento, ou melhor dizendo, a visita do
grande mestre Jesus Cristo. Sempre gostei dessa época, não somente pelo que se
comemora, mas pelo espírito de paz e de solidariedade que contagia a todos
nestes dias.
Estávamos em casa na véspera do natal, eu
minha esposa e meus três filhos, fazendo nossos preparativos para esse dia tão
especial. Tudo estava em
ordem. A árvore já montada, os presentes comprados. Tínhamos
até alguns convidados que viriam festejar conosco o abençoado natal.
À
tarde, por volta das quinze horas, minha esposa se queixou que estava com um
pouco de dor de cabeça. Disse que tomaria um comprimido e iria se deitar um
pouco para ver se a dor passava. Estranhei um pouco, pois não era comum que ela
tivesse dores de cabeça. Acreditei tratar-se de um pouco de cansaço, pois ela,
desde o dia anterior estava às voltas com os preparativos para a noite
natalina, desdobrando-se para que tudo ficasse pronto a tempo. A comida; a
decoração da casa; a roupa das crianças, nossas roupas. Eram muitas coisas ao
mesmo tempo. Ela me pediu que, caso adormecesse, para acordá-la às dezessete
horas para que ela finalizasse os pratos que seriam servidos e para que pudesse
tomar as últimas providências para nossa noite natalina.
Como
combinado, às dezessete horas entrei em nosso quarto para acordá-la. Chamei-a
pelo nome, falando baixinho para que ela não se assustasse. Como ela não
respondeu chamei-a novamente. Nada! O quarto estava na penumbra, acendi a luz e
me aproximei. Ela estava respirando, seu corpo estava quente, mas ela não
despertava. Bati em seu rosto, gritei, mas nada! Ela não acordava. Estava, na
verdade, desmaiada, inconsciente.
Corri
até a rua. Parei um taxi que passava naquele momento. Pedi-lhe que esperasse,
porque iríamos socorrer alguém. Entrei novamente em casa, peguei-a nos braços e
a carreguei até o carro. Pedi ao meu filho mais velho que cuidasse dos irmãos e
qualquer problema chamasse a vizinha.
Dirigimo-nos ao pronto socorro mais
próximo. Paramos em frente à porta de entrada e, desesperado, gritei por
socorro. Dois enfermeiros com uma maca vieram e a recolheram para dentro do
hospital. Expliquei rapidamente o que havia acontecido. Ela foi socorrida
enquanto eu fiquei na recepção apresentando meus documentos, como era de praxe
nestas situações, ainda mais se tratando de um hospital público - eu não era um
homem de grandes posses. Mandaram-me esperar dizendo que assim que tivessem alguma
notícia me informariam. A suspeita, em princípio, era que ela poderia ter tido
um derrame. Essa informação me foi dada por um dos rapazes que a conduziram
para dentro.
Esperei
por mais ou menos uma hora, quando o médico que a atendeu mandou me chamar.
Pelo jeito do rapaz que me chamou comecei a imaginar o pior, e o pior aconteceu
mesmo! O médico me disse que ela realmente tinha tido um derrame cerebral muito
forte, que haviam feito tudo o que foi possível naquela situação, mas ela não
reagiu. Minha esposa havia assim, falecido inesperadamente. Eu não sabia o que
fazer, senti que estava prestes a desmaiar e sentei numa cadeira que havia por
perto para não cair ao chão. Naquele momento eu pensava: Meu Deus! Isso não é
possível! Isso não pode estar acontecendo! Aquilo não era um pesadelo, estava
acontecendo sim, era a dura realidade! Por que meu Deus? E no dia de natal!!!
Depois
de alguns minutos, consegui me recompor e me dirigi para casa. Fui buscar mais
alguns documentos para dar início ao processo para o sepultamento de minha
esposa e falar com as crianças. Talvez tenha sido a coisa mais difícil que fiz
na vida: reunir três crianças na minha frente para contar-lhes que não tinham
mais uma mãe; que sua mãe havia falecido. Choramos muito. Unimo-nos na dor.
Naquela união encontramos a força para superar aquele momento terrível. No dia
seguinte estávamos no cemitério, nos despedindo da esposa amada e da mãe
dedicada. Tínhamos que tocar nossas vidas e assim fizemos. Com a grande ajuda
de minha irmã fomos tocando nossas vidas como tinha de ser.
Com
o passar do tempo fui me transformando num homem amargo. Trabalhando e me
desdobrando para cuidar dos filhos. Tivemos muitos problemas, mas o pior deles
era que eu não me conformava com a morte da esposa. Na bebida encontrei um
pouco de consolo para minha revolta. Se já não acreditava muito em Deus antes
de tudo isso, agora não acreditava nem um pouco. Achava que Deus era uma
figura, um mito que a sociedade inventou para nos consolar naquelas situações
que não tem remédio. Para ser mais franco, passei mesmo a combater a ideia de
Deus. Como poderia haver um Deus justo e bondoso que permitia que uma esposa
fiel e mãe amorosa morresse inesperadamente deixando marido e três filhos
pequenos em plena noite de natal?
Os
filhos foram crescendo, estudando, trabalhando, enfim tocando suas vidas do
melhor modo que podiam. Tornaram-se boas pessoas, apesar de tudo. Houve
ocasiões em que eles queriam que comemorássemos o natal; que montássemos uma
árvore de natal e ficássemos juntos. Argumentavam que a mãe gostaria que assim
fizéssemos, mas eu não cedia. Para mim, o natal era o pior dia da minha vida.
Lembro-me que em alguns desses natais fiquei sozinho em casa. Meus filhos
preferiam ir para a casa de parentes ou amigos me deixando sozinho para não
terem que conviver com minha amargura e revolta.
Lá
pelos meus sessenta anos conheci uma pessoa que me falou algumas coisas sobre
espiritismo; que as pessoas não morriam de fato; que estavam apenas em outra
dimensão da vida; e coisas desse tipo. Em princípio achei aquilo tudo besteira
de gente ignorante, sonhadora e desocupada. Mas comecei a pensar: e se aquilo
fosse verdade? Será que eu poderia entrar em contato com minha esposa?
Conversando com esse novo amigo sobre isso, ele me falou que era possível sim,
mas que ele não poderia garantir, porque isso dependia de muitos fatores, tais
como merecimento, entre outros. Se eu quisesse poderia acompanhá-lo ao Centro
Espírita que ele frequentava e trabalhava. Lá havia um trabalho de psicografia
onde alguns desencarnados mandavam mensagens para parentes encarnados. Quem
sabe eu fosse agraciado com uma mensagem? Topei e lá fomos nós.
Fui
ao Centro Espírita quatro semanas seguidas e nada! Decidi que iria somente mais
uma vez. Não iria mais dar asas à imaginação. Meu amigo insistiu para que eu
não desistisse, porque apesar de não ter recebido mensagem alguma eu estava
aprendendo alguma coisa sobre o mundo dos espíritos. Não colega! Essa foi minha
resposta, já bastava o sofrimento pelo qual passei e ainda passava com a
saudade daquela mulher que dava sentido para minha vida.
Algum
tempo depois, numa tarde em que havia acabado de chegar do trabalho um fato
interessante ocorreu. Estava cansado e antes de tomar meu banho me joguei numa
poltrona para descansar um pouco. Acabei adormecendo e até sonhando. No sonho,
minha falecida esposa aparecia tão bonita ou mais do que era no tempo que
partiu, e dizia que iria mandar uma mensagem para mim. Acordei de supetão,
muito assustado. Foi um sonho que parecia real. Tomei meu banho e resolvi ir ao
Centro Espírita, pois era justamente o dia do trabalho de psicografia.
Ouvimos
uma palestra enquanto os médiuns psicografavam. Ao final da palestra, para
minha surpresa, a pessoa que conduzia os trabalhos me chamou pelo nome. Havia
uma mensagem para mim! Emocionado, me dirigi à pessoa que iria me entregar a
mensagem. Não quis ler a mensagem ali. Coloquei-a no bolso e fui para casa. Lá
chegando, tranquei-me naquele que foi nosso quarto para poder ler a mensagem
com tranquilidade.
A
mensagem era realmente dela, não tive dúvida nenhuma. Chamava nossos filhos
pelo nome e me chamava pelo apelido carinhoso que somente nós dois conhecíamos.
Pedia-me para mudar de atitude com relação a Deus. Dizia que somos ignorantes
demais para compreendermos os seus desígnios e para compreendermos o porquê de
as coisas terem acontecido da forma como aconteceram. Pediu-me para continuar
cuidando de nossos filhos, apesar deles já serem adultos e que eu deveria
estudar as coisas espirituais, porque isso ia me ajudar muito.
A
partir daquele dia passei a frequentar o Centro Espírita. Estudei e me tornei
um trabalhador da casa, onde tive oportunidade de ajudar e orientar outras
pessoas que como eu, tinham perdido entes queridos e estavam infelizes ou
revoltados com a perda que tiveram. Aprendi que somos realmente pequenos demais
para compreendermos a grandeza da divindade. Aprendi muito no convívio com os
espíritos que trabalhavam naquela casa e que nos ajudavam a evoluir cada vez
mais.
Aos
setenta e cinco anos de idade desencarnei de um modo muito tranquilo. Deitei-me
para dormir e de repente, acreditando estar sonhando, fui recebido por M. no
plano espiritual. Finalmente estávamos juntos novamente! Passei por um período
não muito longo de adaptação. Pude então saber que ela esteve a maior parte do
tempo junto de nós. Nos orientando e nos apoiando naqueles momentos mais
críticos de nossas vidas na carne.
O Esposo.
Hoje
estamos aqui juntos, passando esta mensagem e contando nossa pequena história.
Pedimos desculpas por omitirmos muitos detalhes importantes de nossas vidas,
mas acreditamos que o principal foi dito. O que desejamos é mostrar que não
devemos nunca duvidar da sabedoria de Deus. Devemos nos resignar e nos
conscientizar de nossa ignorância, porque sabemos tão pouco dos desígnios do
Criador. Tudo o que aconteceu conosco tinha uma razão de ser. O fato de nossos
filhos terem sido criados sem a mãe tornou-os pessoas melhores e mais
compreensíveis, de caráter mais firme. Isso só para citar uma das muitas
razões. Eles precisavam, tanto quanto meu esposo, passar pelo que passaram para
poder compreender muitas coisas, entre elas, as duas realidades da vida: a vida
material e a vida espiritual. Tudo isso sem contar os fatores relacionados com
as nossas existências passadas, pois nada escapa a lei de causa e efeito.
Nos
preparamos agora para nova jornada. Novas experiências nos aguardam. Ainda não
sabemos se estaremos juntos ou não, mas de uma coisa sabemos, que mesmo não
estando juntos na carne, estaremos sempre juntos em espírito e ainda vamos
comemorar muitos natais na Terra.
Que Deus nos abençoe a todos.
A esposa.
Mensagem psicografada em 27-02-2017
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