NECESSIDADE E MERECIMENTO
Fazer
a distinção entre estes dois conceitos é um tema que merece consideração. É
muito comum, no meio espírita ou espiritualista ver as pessoas confundindo
estes dois conceitos, ou misturando-os, tomando um pelo outro ou mesmo
fundindo-os em um só. A verdade é que são coisas muito distintas e se aplicam a
diferentes situações.
Merecimento
é aquilo que podemos considerar como algo que deve me pertencer; algo a que
tenho direito; algo a que fiz jus. Entendemos o merecimento como o direito a recompensas
por uma tarefa que tenhamos executado bem; por um comportamento adequado; por um simples modo de pensar que acreditamos
correto e oportuno. Acreditamos que merecemos alguma coisa até mesmo por calarmos
no momento certo. Acreditamos que merecemos recompensas até por termos deixado
fazer alguma coisa. Como assim? Isso acontece no caso de algo que poderia ser
nosso, mas abrimos mão para que outro o conquiste, por entendermos que tal
pessoa precisava mais daquilo do que nós. Em resumo, podemos dizer que merecimento
é algo que a justiça divina leva em consideração para a distribuição das “recompensas”.
Numa visão ingênua, merecimento é isso mesmo, mas precisamos alargar nossa visão
e entender que não se trata simplesmente de uma busca de prêmios; não se trata
de um jogo. O merecimento é parte de uma lei maior que rege todos os mundos e
diz respeito diretamente ao modo como nosso Criador, através de suas leis, rege
este infinito universo. Podemos dizer que este conceito é relativo somente ao
ser humano, espírito encarnado, ou aos seres que possuem consciência.
Certamente não poderá ser aplicado ou pensado em relação a seres irracionais ou
seres inanimados. Não queremos dizer que esses seres também não estejam sob as
leis do Criador. É que o merecimento está relacionado somente àqueles que sabem
de si, aqueles que sabem distinguir o que é bom do que é ruim. O que é
progresso do que atraso.
Já
a necessidade refere-se a algo que é indispensável para nós, ou seja, algo que
sem ele não podemos passar; algo que impreterivelmente deve acontecer. A
necessidade faz parte de nosso processo de evolução, tal como o alimento é
imprescindível para aquele que sente fome ou como a água é imprescindível para
quem tem sede. Ao contrário do merecimento que aplicamos às coisas boas, o
conceito de necessidade pode ser aplicado tanto a coisas boas quanto a coisas ruins.
Que fique claro uma coisa; usamos estes termos, “bom” e “ruim” mais por uma
questão didática do que por qualquer outro motivo, pois para nós, não existe
nada que seja ruim, trata-se apenas de posição em relação à polaridade. Não
existe nada na criação que não tenha sido feito para evoluir e melhorar sempre.
Infelizmente, para nós, espíritos em evolução, ainda é difícil entendermos alguns
fenômenos, tais como as doenças, os abusos sexuais e a violência como coisas
boas, porque não temos consciência plena e não sabemos de tudo o que está por
trás dessas coisas. Nossa visão é temporal se restringe ao presente. Nós só
conseguimos ver a aparência, não conseguimos ver a essência desses eventos.
Tenham certeza de que Deus em sua infinita bondade e sabedoria, tal como
acontece com pessoas que sofrem acidentes ou sentem uma dor muito intensa e que
têm o cérebro desligado por um dispositivo natural, faz com que todas as pessoas
que sofrem estas barbaridades (pessoas que às vezes estão crianças) também sejam
dotadas de um dispositivo natural que as livra do sofrimento que chamamos de
insuportável. Mas voltemos ao conceito de que estávamos falando. Podem
argumentar que o merecimento também pode ter um lado ruim ou negativo, por
exemplo, no caso de pessoas que cometem crimes terríveis. Diriam que estas
pessoas merecem determinada punição até por uma questão de justiça. Essa
pequena confusão se dá porque entendemos que neste caso, o que estão chamando
de merecimento deveria ser chamado de necessidade. Nós diríamos que este
criminoso necessita de uma lição que pode vir em forma de punição, ou seja,
deixa de ser merecimento e passa a ser uma necessidade. Confuso? Podemos
esclarecer um pouco mais. O que queremos dizer é que uma coisa merecida quando
passa para o lado negativo pode ser entendida como uma necessidade. Por questão
de didática adotamos este modo de interpretar o conceito de merecimento apenas
para coisas boas e o de necessidade para ambas as coisas, boas ou ruins. Este
modo de ver facilita o entendimento destes dois conceitos.
Quando
elevamos nosso pensamento ao Criador, independente do nome que usemos para
designá-Lo, na maioria das vezes, o fazemos para pedir. Claro, muitos elevam
seu pensamento para agradecer, mas na maioria das vezes o petitório prevalece.
Nessas orações costumamos pedir as mais diversas coisas, seja saúde, seja
dinheiro, seja emprego, seja amor de alguém, enfim a lista é imensa. O que não
fazemos é perguntar para nós mesmos o seguinte: será que realmente preciso do
que estou pedindo? Será que eu mereço aquilo que estou pedindo? Não vamos
entrar aqui, até por uma questão de tempo, no campo dos exemplos, pois sabemos
que costumamos pedir as coisas mais absurdas. O que queremos deixar marcado é
que não levamos em consideração, quando vamos ‘’falar’’ com Deus, nossa necessidade
e nosso merecimento.
Nossa
sugestão é que tentemos responder a essas duas perguntas ante de nos dirigirmos
aos nossos protetores, santos, deuses, etc. Pode ser que nos surpreendamos com
a resposta que vamos dar a nós mesmos. Veremos que, com poucas exceções, na
maioria das vezes não necessitamos daquilo que estamos pedindo (o que temos
dificuldade de entender é que em alguns casos o que necessitamos é justamente a
falta de alguma coisa, para aprendermos o seu verdadeiro valor). E com mais
surpresa veremos que não merecemos aquilo que estamos pedindo, quando não exigindo
(por exemplo, pessoas que pedem para receberem um salário melhor sem se
preocuparem em trabalhar um pouco mais ou estudar para se tornarem melhores
profissionais). Infelizmente isso é um fato - pedimos muito e merecemos pouco.
Que
podemos fazer a respeito disso? Devemos parar de pedir? Devemos nos considerar
seres miseráveis que não merecem atenção do Criador? Não, não e não! O que
devemos fazer é entender essa relação entre merecimento e necessidade e como
tudo em nossa vida, buscar o equilíbrio entre esses dois conceitos para não
pedirmos o que não merecemos e nem aquilo de que não necessitamos. Fica a
impressão de que não adianta orar, não é mesmo? Mas adianta sim, e por várias
razões, sendo a primeira delas porque é através da oração que nos conectamos
com a divindade. Pela oração, por alguns instantes conseguimos nos libertar da
materialidade do mundo físico, percebemos sua transitoriedade e sentimos que
pertencemos a algo muito maior. Pela oração, e pedindo aquilo que merecemos ou
que de fato necessitamos, podemos ter certeza de que seremos atendidos. Jesus
dizia que o Pai sabe do que precisamos antes mesmo de pedirmos. É assim mesmo
que funciona a Lei Divina. O que temos dificuldade em perceber é que quando
pedimos alguma coisa a Deus, em muitos casos, Ele já nos deu aquilo a que
tínhamos direito e se ainda não nos deu com certeza nos dará no momento oportuno.
Nem sempre o que pedimos é o que merecemos, mas o que recebemos sempre é o que
necessitamos.
Desejamos,
ao propor esta reflexão, que sejamos mais coerentes em nossos pedidos, que
sejamos mais comedidos em nossos desejos. O mundo moderno nos ilude e nos faz
acreditar que precisamos de muitas coisas. O homem dos dias atuais inventou
necessidades que não são reais. Isso faz com que com que nós nos achemos
merecedores de muitas coisas. Acreditamos que temos muitos direitos e acabamos
esquecendo que também temos muitos deveres. Isso é algo que também precisa ser
colocado na balança do bom senso. Uma boa solução para isso é buscar a
espiritualização, procurando viver como um espírito que temporariamente ocupa
um corpo que logo se desintegrará pelas leis naturais. Corpo este que não
precisa de tantos acessórios quanto pensamos, porque seu prazo de validade já
está determinado. O homem espiritualizado já não se martiriza quando não
consegue possuir as coisas que deseja. Fica feliz com o pouco que tem e
continua buscando a melhora sem que isso lhe transforme num ser cuja obsessão é
acumular riquezas materiais, se é que há alguma riqueza na matéria. Não
queremos dizer com isso que devemos nos tornar criaturas acomodadas que não
buscam a melhoria material. Estamos imersos na matéria e precisamos sobreviver
na matéria, e devemos fazer isso da melhor forma possível. Só alertamos a todos
para que não façam disso a razão de suas existências. Muitos irmãos, com o
argumento de que Deus quer que tenhamos uma vida confortável, acabam se
tornando pessoas ávidas por bens materiais, tornando-se tão gananciosas e desequilibradas
que não conseguem nem desfrutar desses bens pelos quais sacrificam toda encarnação.
Nunca é demais repetir que não levaremos nada de material quando nos
libertarmos do corpo físico, portanto não é sábio sacrificar nossa existência
em busca da riqueza material. Procuremos desenvolver em nós os valores do
espírito, cuja marca maior é o amor pelo próximo.
Entre
merecimento e necessidade a palavra chave é equilíbrio. Quando encontrarmos
esse equilíbrio estaremos mais próximos do objetivo pelo qual estamos
encarnados. Estamos aqui para nos tornarmos melhores do que éramos antes de
encarnar. Não só em relação a esses conceitos, mas devemos buscar o equilíbrio
em todas as coisas, esse é um objetivo intrínseco no conceito de encarnação.
Não
esperamos que todos concordem com nossas singelas palavras, que apenas mostram
um dos muitos lados dessa questão, mas esperamos que elas possam servir de base
para reflexão. O antagonismo é ferramenta de evolução. Se você não concordar
com essas palavras, esperamos que elas sirvam, pelo menos, como elemento de
comparação com suas próprias ideias e que, dessa síntese, surja uma ideia
melhor!
Que
o nosso Criador, que a tudo provê, dê a todos sabedoria suficiente para que
possamos ter aquilo que merecemos e necessitamos na justa medida.
Muita paz e muita luz!
Psicografado em fevereiro de 2018
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