A Culpa
Culpa
é aquela sensação desconfortável que sentimos quando acreditamos que não
fizemos a coisa certa ou deixamos de fazê-la. É aquele sentimento oprimente,
que parece querer nos esmagar quando nossa consciência nos acusa de termos
prejudicado outra pessoa ou outras pessoas através de nossas atitudes, através
de nossas escolhas. Culpa é um sentimento negativo, como se fosse uma punição
que impomos a nós mesmos na esperança de que isso justifique nossos atos e
depois nos faça sentir melhor, porém o que ocorre é exatamente o contrário.
Além da consciência de saber que não agimos bem, ainda nos agredimos
psicologicamente através desta autopunição. Tão estranho é o sentimento de
culpa que não podemos sequer dividi-lo. Ele é só nosso. Invisível para os que
estão à nossa volta, mas tão real para nós que o sentimos. A culpa é um
fantasma que só nós podemos ver. Sendo só nosso, só a nós ele assusta. Mas, de
onde vem esse sentimento tão particular? Ele é bom em algum sentido? Qual
poderia ser a utilidade deste sentimento, uma vez que, enquanto
espiritualistas, sabemos que nada existe sem que seja necessário?
É
bastante comum ouvirmos pessoas comentando que o sentimento de culpa não leva a
nada e que, ao invés de ficarmos curtindo culpa, devemos procurar reparar o mal
que fizemos ou fazer o bem que deixamos de fazer. É comum também ouvirmos a
opinião de que “não fomos nós que fizemos o mundo” ou ainda “em primeiro lugar
venho eu, depois cuido dos outros”. São frases feitas que têm por objetivo
tirar de nós toda a responsabilidade pelas coisas que acontecem no mundo,
incluindo aquelas que ajudamos a construir. Se o meu próximo sofre, o problema
é dele! Se sofre é porque merece! Acreditamos que são opiniões válidas, porém,
precisam ser melhor pensadas. De um ponto de vista psicológico materialista,
num contexto de uma vida material única, podemos dizer que este seria o modo de
pensar mais lógico, porque num contexto assim, o mais lógico seria viver da
melhor forma possível, não importando a quem prejudicamos ou deixamos de ajudar.
Numa realidade vista deste ângulo, é óbvio que sejamos nossa maior prioridade.
O
problema ganha contornos diferentes quando nos colocamos como espíritos que
sobreviverão à matéria e que partirão para outra dimensão levando toda a
bagagem sentimental, emocional e moral que adquirimos nesta encarnação. Sabendo
também que o que somos hoje já é o fruto de nossas experiências reencarnatórias
passadas, as coisas se complicam mais ainda. Se admitirmos isso como verdade,
seremos obrigados a rever este conceito de culpa dentro desta realidade mais
abrangente. Se tudo o que fazemos aqui vai repercutir em nossa condição
espiritual e em nossas próximas reencarnações, então vamos ter que repensar
alguns conceitos, dentre os quais a culpa se destaca como sendo de suma
importância.
Esse
sentimento que nos coloca numa situação desconfortável e que se confunde, de
certo modo, com aquilo que chamamos de consciência, tem um lado positivo sim.
Tem um lado que, se for bem entendido, pode nos ajudar a viver de uma forma
mais plena e mais de acordo com os princípios evolutivos que fazem parte de
nossa existência como espíritos imortais temporariamente encarnados. Podemos
entender a culpa como um aviso de que fizemos alguma escolha errada. Muitos
discordarão dessa opinião que, nem queremos chamar de tese, para não gerar
polêmica, uma vez que, o que desejamos é fazer as pessoas refletirem e não
provocar discussões improfícuas. Percebam bem a palavra que usamos: um “aviso”.
Se entendermos a culpa deste modo, significa que ela não deve ser entendida
como uma coisa que deva durar e nos fazer sofrer. Se entendida assim, ela deve
ser encarada como um chamado para a reflexão, que num primeiro momento, dará a
impressão de autopunição, mas que funcionará como o ponto de partida para a
reversão da atitude, comportamento ou pensamento que a desencadeou. Vejam que,
o que propomos não é o oito e nem o oitenta. Buscamos algo que esteja no meio
do caminho, ou seja, nem frieza e irresponsabilidade total e nem uma
culpabilidade autodestrutiva. Se nos sentimos culpados é porque consideramos
que não agimos de acordo com nossa verdade interior. Isso é um fato que devemos
considerar. Não podemos ser como os psicopatas que não se importam com outros e
não sentem culpa ou remorsos por quaisquer atos que praticam. Se adentrarmos
por este caminho e entendermos a culpa somente como algo que não deve fazer
parte de nossa vida - tal como aqueles que pensam que o que está feito está
feito, e que não devemos sofrer por coisas que não têm como voltar atrás – nos tornaremos
pessoas insensíveis que em nada contribuem para a construção de um mundo
melhor. Cremos que agindo assim, nos aproximamos dos animais irracionais que
agem de modo instintivo visando tão somente a sua sobrevivência. Somos mais do
que animais instintivos; somos carne, mas também somos espírito; somos matéria,
mas também somos essência. Já entendemos que o outro é tão importante para nós
como nós mesmos somos. O ser humano, espírito encarnado, já sabe que é no outro
que vê a si próprio. Simplesmente não podemos ignorar o outro. Esse sentimento
de culpa, que nos assalta de vez em quando, serve também para nos lembrar de
que já ultrapassamos esta, que pode ser entendida como a fase mais egoísta de
nossa existência.
Não
queremos dizer que devemos viver a vida do outro, negligenciando a nossa
própria vida. Jesus resumiu todo o seu ensinamento na frase “ama a Deus sobre
todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo”. Podemos, na análise desta máxima
do Cristo, auferir algumas lições interessantes que tem muito a ver com o nosso
tema. Quando Ele diz que devemos amar ao próximo como a nós mesmos, fica
patente que nós e o outro estamos em igualdade de importância na escala de
valores apregoada por Ele. É muito natural que eu me sinta culpado quando
prejudique o meu próximo, até porque eu estou prejudicando a mim mesmo e o
sentimento de culpa é a consequência moral do meu ato impensado ou não. Por que
não aproveitarmos esse “aviso” para refletirmos sobre nossos atos futuros? Os
espiritualistas, pelo menos boa parte deles, entende que fazemos parte da
divindade. Carregamos em nós aquilo que muitos chamam de “a centelha divina”,
ou seja, um pedacinho do Criador dentro de nós. Essa ideia pode ser resumida na
expressão “somos todos um”. Partindo dessa idéia, fica mais fácil compreender a
primeira parte da máxima cristã que ora analisamos e que diz “ama a Deus sobre
todas coisas”. Ora, se somos todos um e se fazemos parte da divindade, então só
podemos concluir que somos a própria divindade. Deus está em nós e nós estamos em Deus. Amar a Deus é
amar ao homem; é amar ao próximo como a si mesmo! Ao prejudicarmos o próximo
estamos prejudicando a Deus. Cremos que isso seja razão suficiente para justificar
o sentimento de culpa.
Bem,
agora resta-nos mostrar que não estamos defendendo o sentimento de culpa.
Somente queremos dizer que ele não é algo totalmente inútil e desnecessário.
Ele existe e é poderoso, mas deve ser compreendido como mais uma das
ferramentas que o Criador colocou em nossas mãos para nos ajudar em nossa
evolução. Vamos entendê-lo como aquele farol que se acende mostrando a beira do
abismo, e não como um castigo que nos foi imposto e que devemos sofrer para
purgar nossos ‘’pecados’’. Na justiça divina, a moeda com a qual pagamos nossos
débitos é o amor e não o sofrimento. O sofrimento é sempre o aviso de que temos
contas a acertar. Assim é que devemos entender o sentimento de culpa. Não
Poderemos reparar o dano que causamos a alguém através da culpa. Viver anos a
fio sentindo culpa não vai fazer com que o nosso erro seja reparado e o nosso
irmão seja recompensado. Quando o Mestre Jesus nos diz que devemos pagar o mal
com o bem, Ele nos dá uma chave para entendermos, entre outras coisas, a
questão da culpa. Se fizermos mal para alguém, só poderemos reparar este mal
fazendo o bem para esta pessoa a quem prejudicamos. Certamente não será nos
contorcendo de culpa e remorsos que o faremos.
Quando
os ‘’materialistas da vida única’’ dizem que não devemos nos sentir culpados e
que a culpa não leva a nada, tais pessoas também têm sua razão, porque a culpa
não repara o erro cometido e a pessoa que se deixa corroer pelo remorso só
aumenta o problema, fazendo de si mesma uma extensão do problema anteriormente
criado que trouxe prejuízo à alguém. O que sugerimos é que não vejamos a
questão somente deste ponto de vista. Há mais coisas envolvidas num sentimento
de culpa do que costumamos observar. A culpa, que surgiu na humanidade em
função de seus sentimentos ambivalentes, pode ser aproveitada
no sentido que preconizamos: como um alerta para mudarmos as coisas para
melhor. Não deve ser usada como autopunição, porque só podemos compensar aquele
a quem prejudicamos pelo bem que fizermos a ele, seja nesta ou em outra
encarnação. Em muitos casos, nossos erros não podem ser reparados pelo fato da
pessoa prejudicada não estar mais entre os encarnados. Mesmo assim não devemos
nos deixar dominar pela culpa e ficar paralisados. Lembremo-nos sempre de que
“somos todos um”. O bem que faço ao próximo, faço a qualquer um, faço a mim
mesmo e faço a Deus!
Num mundo como o nosso, infelizmente a culpa ainda é
necessária!
Muita paz e muita luz!
Victor.
Mensagem psicografada em fevereiro/2018
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