Um ladrão ao qual eu mesmo dei a chave do cofre e ele, sem a menor consideração, me roubou.
O que ele me roubou? Tempo!
E o que temos de mais precioso na vida, se não tempo?
E o que é a única coisa que temos na vida, se não tempo?
Nem nossos corpos serão sempre nossos. O tempo é nosso!
Se o culpo? Óbvio que não!
Eu me dei a ele, eu quis fugir com ele. Sabia de seu caráter duvidoso, mas sabia de seu companheirismo,de sua capacidade de embalar meus sonhos; de me devolver a infância;
de me devolver a inocência que a convivência com os outros nos obriga a sufocar.
Ele me fazia rir. Ríamos tanto!
Confesso que, se não fosse por problemas de saúde nossa relação não teria terminado e ele teria me arrastado ao túmulo, para o qual eu iria com um sorriso idiota no rosto, um milhão de promessas não cumpridas, um milhão de tarefas mal feitas e deixaria um milhão de pessoas infelizes por minha causa.
Ah! Desgraçado ladrão!
Amor de mulher de malandro!
Como te amei e como te odiei!
Hoje, só a indiferença te ofereço.
Obrigo-me agora a cometer injustiças de toda ordem, por tua causa, ladrão.
Minhas vítimas prediletas são os pobres e desgraçados neurônios que por esquecimento me deixaste. Obrigo a cada um desses heróis que tanto lutaram, a trabalhos forçados; obrigo-os a trabalhar por dois, por três, por todos aqueles que foram destruídos em vão.
Se te odeio? Não! Tivemos bons momentos. Algo tinha que ser sacrificado!
E por que não minha memória, afinal temos tantas coisas ruins pra esquecer.
Na verdade, eu é que não quis resistir ao teu canto e teu encanto de sereia. Deixei-me levar por tua conversa de filósofo, por teu charme de conquistador barato.
Tenho até saudades de ti. Afinal, não se esquece facilmente um grande amor. Mas se me perguntarem se te quero de volta, a resposta sairá de meus lábios como uma explosão:
Quantas coisas interessantes, que só agora enxergo, poderia eu ter feito, nesse tempo que me roubastes.
Quantos bons livros, boas ideias e boas realizações trocados pela aceleração da destruição de um corpo e pela imbecilização de uma alma.
Que grande desperdício...
Não quero aqui fazer papel de “virgenzinha arrependida” ou me colocar como juiz de ninguém, pois considero a liberdade de escolha o caminho para a evolução. Cada um pode e deve fazer o que achar certo com sua vida, com seu corpo e sua mente ou alma, como quiser chamar, até porque, sem isso o que seríamos? Robôs! E é com base nessa autonomia, nesse livre arbítrio, que desejo a todos, que me permito dizer que, se me perguntarem a respeito do consumo de álcool, se deve ou não ser consumido, respondo firmemente que não. Um não, assim mesmo, com ponto final para não exaltá-lo e por não considerá-lo merecedor sequer, de um ponto de exclamação.

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