Nem
que se passassem mil anos eu deixaria de querer a vingança que tanto mereço!
Tínhamos
toda uma vida pela frente e a maldita colocou tudo a perder. Tínhamos tudo para
sermos felizes; morávamos numa maravilhosa casa de campo, nos arredores de Lyon,
com um imenso gramado, jardins, bosques e pomar de árvores frutíferas entre
outras belezas. Nossa casa era um pequeno castelo que lembrava os castelos
medievais, com algumas partes feitas de pedras e com portas muito altas feitas
de madeira da melhor qualidade.
Tínhamos
muitos empregados, camareiras e tudo o mais que uma família nobre poderia ter.
Éramos ambos herdeiros de famílias ricas e de sangue nobre. Nosso casamento era
a união perfeita. Éramos jovens, ricos e bem-apessoados. A união de nossas
fortunas nos tornava ainda mais ricos, poderosos e invejados. Toda a província
tinha inveja de nossa posição social. Quantas pessoas não dariam tudo para
estar em nosso lugar... muitas com certeza!
Tínhamos
tudo para sermos felizes, bastava para isso que seguíssemos as boas normas da sociedade;
que apenas cumpríssemos o que havia sido acordado no altar frente à Nosso
Senhor Jesus Cristo. Em minha mente havia a certeza de que nada poderia dar
errado. Seríamos um casal perfeito, principalmente porque eu a amava com todas
as forças do meu coração.
Eu
sentia que havia uma desigualdade em nosso amor. Percebia que a intensidade do
meu amor por ela era bem maior do que o amor que ela sentia por mim, se é que
ela sentia alguma coisa parecida com este sentimento em relação à minha pessoa,
mas tinha a ilusão de que, com o passar do tempo, ela acabaria me amando de
modo igual. Eu faria tudo, me esforçaria ao máximo para que isso acontecesse.
No
princípio de nossa convivência tudo correu dentro da normalidade, mas com o
passar do tempo fui sentindo uma cera indiferença dela em relação à minha
pessoa; uma certa frieza, que se fazia presente até mesmo em nosso leito de
casal. Com muita paciência fui dando tempo ao tempo para que ela se acostumasse
à vida de senhora do lar. Creditava um pouco dessa insatisfação à sua
juventude; ela era um pouco mais jovem do que eu.
Eu
vivia muito atarefado cuidando dos negócios da família; tínhamos muitos bens
para administrar. Quando não estava trancado em meu escritório de casa em
reuniões com empregados ou outros homens de negócios, estava na cidade próxima,
Lyon, onde também mantinha um escritório. Era de fato um homem muito ocupado.
Não tinha tempo para cuidar do meu amor; para lhe fazer agrados que a fizessem
ter um sentimento mais profundo para comigo. Com o passar do tempo ela foi
ficando cada vez mais indiferente, eu diria quase ausente. Nas raras vezes em
que estávamos juntos, na maioria delas, eu sentia como se estivesse sozinho.
Isso foi se agravando até um ponto tal que decidi mudar de vida para salvar o
nosso casamento e a nossa felicidade.
Quando
tomei esta decisão estava no escritório de Lyon, encerrei o trabalho mais cedo,
logo após o almoço, assim poderia chegar em casa durante a tarde e lhe
comunicar o que havia decidido: trabalharia menos; ficaria mais tempo junto a
ela; lhe daria mais atenção e o carinho de que era merecedora. Ao chegar em
casa, um dos empregados me informou que ela não estava; havia saído para um
passeio a cavalo, sendo acompanhada por outro empregado que tinha a função de
protegê-la. Pedi que arreassem outro cavalo para mim. Iria lhe fazer uma
surpresa. Cavalgaríamos juntos; conversaríamos; começaríamos a colocar algumas
coisas de volta ao seu lugar...
Cavalguei
por uns vinte minutos e não consegui encontrá-los. Acreditando que havíamos nos
desencontrado, resolvi parar à beira de um pequeno lago que havia na
propriedade para descansar um pouco, observar a natureza, refletir um pouco
mais sobre a minha decisão, depois voltaria para casa onde esperava encontrá-la
finalmente. Ao me aproximar do lago, ouvi vozes e risos. Aproximei-me com
cuidado para ver o que se passava. Encontrei a maldita e o empregado que a
acompanhava em pleno coito! Estavam deitados sobre um lençol ou toalha de cor
branca. (este detalhe me marcou muito, como se este branco representasse a
pureza do meu amor que estava sendo maculado) Meus olhos não queriam acreditar
no que viam. Por alguns segundos fiquei estático como se estivesse em estado de
choque. O sujeito montou e saiu em disparada, enquanto ela, seminua, não teve
sequer forças para reagir. Ali mesmo a espanquei até que seu rosto ficasse
quase irreconhecível. Joguei-a no cavalo e fomos para casa, onde fui informado
que o empregado que estava com ela havia fugido, levando o cavalo e o pouco
que conseguiu pegar de suas coisas. Daquele dia em diante nossa vida tornou-se
verdadeiro inferno. Proibi sua saída de casa; para isso coloquei homens para
vigiá-la. Passei a dedicar-me mais ainda ao trabalho para não ter tempo de
alimentar ainda mais o meu ódio pela traidora.
Num
dia, em que voltava para casa, já quase anoitecendo, fomos surpreendidos por
alguns homens que mandaram o meu cocheiro parar, gritando que se tratava de um
assalto. Um dos homens, com o rosto coberto por um lenço preto apontou a
pistola para meu peito e disparou. Lembro-me das palavras que proferiu antes do
disparo: morra desgraçado!
Vaguei
por algum tempo no mundo dos espíritos. Perdi a noção do tempo. Sentia-me ainda
ferido, sangrando e com dores até que encontrei um sujeito que se propôs a me
ajudar. Era um sujeito estranho, cuja maldade podia sentir pela sua simples
presença. Me explicou que eu havia desencarnado e que tudo o que eu sentia era
imaginação, reflexo das coisas que me haviam acontecido. Se eu quisesse,
bastaria exercer minha vontade e tudo voltaria ao normal, ficaria bem, tão bem
quanto antes de desencarnar. Depois me levou até minha casa. Já haviam passado
alguns meses de meu desencarne. Lá pude ver a maldita vivendo com seu amante,
que só pelo seu olhar pude perceber que se tratava do meu assassino. Foi fácil
concluir que tudo foi um plano arquitetado por ele, por ela ou por ambos para
darem cabo de minha pessoa e se apossarem de nossa fortuna.
Passei
a viver naquela casa. Eu e meu companheiro, que agora me servia como se fosse
um bom empregado. Passamos a fazer de tudo para perturbar a paz daquela casa.
Sugeríamos ao assassino que, da mesma forma que ela me traiu poderia traí-lo, e
que ele deveria dar cabo dela e se apropriar de toda a sua fortuna; que ele
jamais seria reconhecido como seu marido porque não tinha sangue nobre; que
seria sempre um capacho apenas para lhe satisfazer as necessidades sexuais e
coisas assim. Tanto infernizamos sua vida com nossas sugestões que o infeliz
acabou cedendo e numa noite em que havia bebido demais resolveu matá-la; para
meu prazer, esfaqueou a maldita enquanto dormia no leito que havia sido nosso.
Assim
que ela deixou o corpo físico lá estávamos para recebê-la, mas os homens que a
ajudaram a desprender-se não permitiram que colocássemos as mãos nela. Depois
disso passamos a procurá-la em todos os lugares possíveis; todos os lugares
onde podíamos penetrar, pois existiam muitos lugares que não nos eram
acessíveis. Quando não estávamos procurando por ela, permanecíamos naquela
casa, assistindo sua decadência por falta de cuidados. O meu assassino acabou
sendo preso e passou longos anos no cárcere, onde conseguimos atormentá-lo até
levá-lo praticamente à loucura, por fim o abandonamos. Quanto a ela, até hoje
não conseguimos encontrá-la. Essa busca é a motivação de meu existir; preciso
dessa vingança; preciso vê-la sofrendo, pagando por sua odiosa traição!
Algum
tempo atrás, fomos encontrados e trazidos por alguns homens e mulheres que
desejam me demover de meu objetivo. A algum tempo têm cuidado de mim e de meu
companheiro de jornada. Eu estava parecendo um mendigo, maltrapilho, tanto eu
quanto meu velho parceiro. Tratados, limpos e alimentados nos fizeram e fazem
participar de reuniões onde só falam de amor e perdão. Tudo isso em nome de
Nosso Senhor Jesus Cristo. Tenho pensado a respeito conforme prometi a esses
benfeitores, mas cá comigo, tenho que seja impossível desistir de meu intento,
pois o ódio que acumulei durante tanto tempo já faz parte de meu ser. Tenho a
impressão de que é ele que impulsiona e me dá forças para continuar vivendo.
Segundo
meus benfeitores, existem razões para tudo o que me sucedeu, e que em tempo
oportuno, me esclarecerão e me mostrarão justificativas que farão com que eu
desista de minha merecida vingança. Estou aguardando, pois não sou um ingrato e
prometi lhes dar uma chance para me convencerem, embora eu considere isso uma
lamentável perda de tempo.
Comentário
de um dos espíritos que o resgataram:
Este
irmão passou por uma situação lamentável, embora comum, e por isso se deixou
envolver pelo ódio e pelo desejo cego de vingança. Associou-se a outro irmão
que se encontrava perdido a mais tempo que ele e passaram a viver como
obsessores, tanto da ex-esposa quanto de seu assassino, comprometendo e
atrasando cada vez mais suas próprias evoluções. Antes dessa, foram feitas
algumas tentativas fracassadas de resgatá-los para que fossem instruídos e
convencidos a desistirem dessa vingança.
Ela
já está em sua segunda encarnação depois dessa existência desastrada. Na
verdade, ela não teve tanta culpa quanto ele lhe atribui, porque ela foi
obrigada a se casar, sem que tivesse qualquer sentimento por ele. Era uma
pessoa muito insegura e deixou-se seduzir pelo empregado da casa, de modo que
está mais para vítima de que para qualquer outro adjetivo.
Temos
confiança de que, em pouco tempo, faremos com que ele mude de ideia,
principalmente quando lhe mostrarmos fatos relacionados às suas encarnações
anteriores, onde estavam ela, ele e o empregado que fez parte desta trama.
O
propósito de trazê-lo para se expressar faz parte de seu tratamento. É uma
forma de descarregar um pouco da energia ruim que acumulou em função do
sentimento de vingança. Quanto ao comparsa, também está recebendo orientação.
Este, na verdade, já está quase cedendo e desejando sua reabilitação. Sente-se
muito cansado, pois está há muito tempo vagando no mundo espiritual sem rumo
definido.
O
fato é que, mais cedo ou mais tarde, todos eles estarão reunidos em nova
reencarnação e terão oportunidade de consertar as coisas; entenderão que tudo o
que se passou com eles foi simplesmente aprendizado, que teve por finalidade
fazê-los evoluir e os torna-los espíritos melhores.
Um
amigo espiritual.
Mensagem
psicografada em 27-03-2017
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